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Ep#8: de Santiago ao acidente | Chile e Bolívia

10 Julho, 2014 by Dar a Volta | 0 comments

Em Santiago, a capital chilena cercada pelos imensos montes nevados, não poderíamos evitar a tradicional volta pela cidade, passando pelo mercado municipal, as ruas movimentadas do centro, a catedral e até a famosa La Piojera, um reconhecido e antigo bar frequentado não só por jovens e turistas, mas principalmente pelos chilenos que, depois de um dia de trabalho, fazem uma paragem antes de regressarem a casa. Quanto a nós, ficámos-nos pelo Terremoto, o cocktail mais famoso do país e inventado neste mesmo bar, composto por vinho e uma bola de gelado. Antes de deixar Santiago, estivemos sentados à conversa em casa de Fernando Milagros, um músico célebre pela pertença à área musical independente de Santiago e que disse uma das frases que mais nos marcaram ao longo de 13 meses de viagem: “a América do Sul é o futuro”. Atravessámos posteriormente o imenso, belo e inóspito Salar de Uyuni, o maior deserto de sal do mundo situado na Bolívia, na companhia de um grupo de viajantes da Nomad. A caminho de Potosí, a Walentina sofreu o seu único acidente…

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Data: 20 AGO 2013 – 23 Ago 2013
Percurso: de Santiago ao acidente
Países: Chile e Bolívia
Total de dias em viagem: 153
Total de kms percorridos: 13898
Produção: Coletivo Indus Doc
Edição vídeo: Um Segundo Filmes
Design: MoodyStudio
Patrocinador Principal: Nomad
Patrocinador Secundário: TomTom
Media partner: Visão
Apoio em equipamento: GoPro Portugal

O sonho que se apoderou das nossas vidas. Para o resto da vida.

17 Abril, 2014 by Dar a Volta | 7 Comments

Depois de treze meses em viagem, 35.000 quilómetros de estradas sul-americanas e dez países (re)volvidos, repletos de momentos e dias que a memória quer conservar na linha do tempo, e de pessoas para embalsamar no bolso da alma, regressamos a casa e ao velho quotidiano a que a vida nos acostumara. No entanto, apesar de sermos os mesmos, sabemo-nos diferentes. Quanto mais não seja porque, mais uma vez, partimos com o intuito de dar a volta às nossas vidas. Desenhámos um sonho no mapa e desejámos o que, na hora da partida, sabe sempre a inalcançável.

É previsível o conhecimento de que algo vai mudar nas nossas vidas perante uma grande viagem; o próprio acto de viajar a isso impele. Sair da zona de conforto e pisar fora da caixa; beber de diferentes culturas; aprender outro idioma, sem o recurso a regras ou dicionários, apenas porque o contacto humano a isso exige; cruzar linhas imaginárias que, desde o sul do mundo a um dos países mais perigosos dos dias de hoje, nos oferecem paisagens dignas de nos quedarmos sem fôlego; mas, muito mais do que tudo isso, as pessoas. Sempre as pessoas. Que nos abrem as portas de sua casa, entregam a chave sem receios e mudam o dia para que esse seja passado unicamente na nossa companhia. Mais do que os lugares, são as pessoas que fazem as viagens. Incitam-nos, sem o saberem, a (re)descobrir e a pôr em causa todas as convicções e preconceitos que partiram connosco no momento que saímos de casa. Mas quando se despacha as malas para o porão e se acena a quem mais falta nos irá fazer, não temos noção sequer do impacto que os meses vindouros trarão. Imagina-se apenas. Mas não se sabe.

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Fotografia por www.m-ania.com

Durante treze meses, o sonho tomou conta das nossas vidas e, no final, a vida é que tomou conta de nós. Partimos dois e regressamos três. Ainda em La Paz, de partida para a Amazónia, descobrimos que estava grávida. Já lá vão quatro meses de uma pequena vida.

A minha barriga começa a dar sinais de si e, bem no meu interior, cresce um sonho que nasceu de outro. Estamos a meses de ser pais e essa viagem, essa lição maior que o sonho que outrora projectámos, começamos a estudá-la agora. Por tudo isto, somos os mesmos, mas sabemo-nos diferentes.

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Fotografia por www.m-ania.com

Arrumar a vida

14 Abril, 2014 by Dar a Volta | 2 Comments

Escrevo este texto no silêncio que me é tão familiar de uma biblioteca, entre o virar incessante de folhas, o clarear de gargantas alheias e canetas em absoluto frenesim. Para trás, ficaram os lugares improváveis para conciliar palavras: as mesas desordenadas em bombas de gasolina; a Walentina em andamento com o ruído do motor como pano de fundo; cafés de esquina, sempre com o idioma espanhol como companhia distante; bancos de rua que servem de poiso nas horas de espera pelos arranjos mecânicos. Para trás, ficaram também os melhores lugares para escrever: com os pés na areia de uma qualquer praia quase deserta; à beira-rio, porque o barco não esperou e a estrada de regresso dista horas da povoação mais próxima; salas acolhedoras de quem, sem esperar nada em troca, nos abriu a porta de casa; à lareira de um hostel no sul do mundo, enquanto o gelo se acumula no parapeito das janelas e o frio impede uma estadia demorada a bordo da Walentina.

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Nos dias que antecederam a travessia do oceano para regressar a casa, comecei a escrever uma lista do que queria fazer nas primeiras semanas, como quem enumera as resoluções de ano novo. Sem prioridades ou ordem de importância, e sem mencionar a família ou amigos, que esses não precisam de evocações escritas, alistei tudo aquilo de que sentia falta. Chamei-lhe a Lista das Saudades. E apercebi-me de que sentia falta de coisas que, grande parte das vezes, não dava assim tanta importância. Tomar um café expresso no aeroporto quando aterrássemos. Atravessar a Ponte D. Luís a pé. Comer húngaros no café da Ribeira. Perder-me numa livraria. Ler o jornal numa esplanada na praia ao domingo. Voltar à natação. Andar de metro. Comer sopa todos os dias. Escolher um livro da prateleira para ler. Pintar as unhas. Meter-me no comboio para Lisboa. Visitar as feirinhas de sábado à tarde na Baixa. Comprar um caderno novo.

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Quando andamos na estrada, conhecem-se outros que estão a viajar por um longo período de tempo para fugir de alguma coisa ou simplesmente para esquecer o que ficou para trás. Nesses casos, dizem-nos que não sentem falta de quase nada e que a saudade é rematada com novas amizades, passageiras e circunstanciais, com quem também anda de comboio em comboio, de aeroporto em aeroporto, quase sem se demorar em estações. Não critico esta forma de estar, simplesmente não me identifico com ela. Sou demasiado apegada à família e amigos para não desejar a sua presença constante. Sou apaixonada pela minha cidade e gosto dos pequenos detalhes do dia-a-dia. Se gosto da rotina? De não sair de casa a não ser para ir trabalhar ou jantar fora? Não, não gosto. E por isso não vou mentir, dei por mim, na tarde de domingo, a pesquisar voos para a Índia e a ver os preços dos bilhetes de comboio pelo sul da Europa. Não quer dizer que vá a lado algum, simplesmente quis viajar daqui naquele momento e faço-o assim.

O avião aterrou, finalmente, ao final da tarde de sábado e disseram-nos os abraços familiares, a chuva miudinha, o frio que já devia ser sol de primavera, o telemóvel a tocar e o sorriso aberto de quem não nos vê há largos meses, que chegamos ao aconchego da nossa casa. Diz-nos o olhar surpreso dos nossos pais e o abraço apertado da minha melhor amiga – que não esperavam ver-nos antes de quarta-feira, data em que anunciamos a chegada – como é maravilhoso ter-nos de volta. Olho para trás, para o dia em que despachámos as mochilas para o porão há um ano atrás, e sinto que a incerteza da partida, da vida desconhecida que sentia que nos esperava, “não era nada em comparação com a alegria do reencontro”.

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É tempo de repor as saudades. E arrumar a vida de novo, que ainda agora cheguei e não consigo deixar de me sentir uma estrangeira no meu próprio país. As ruas em que o sentido se alterou ou passaram a ser pedestres, os horários dos autocarros que mudaram, o café que encerra mais cedo e a loja que já fechou.

Ep#7: de Hua Hum a Santiago | Chile

24 Março, 2014 by Dar a Volta | 0 comments

Após entrarmos no Chile, país esguio rente ao mar, ao atravessar o famoso rio Hua-Hum, onde Che Guevara o fez há muitos anos atrás na sua jornada de mota pela América do Sul, o frio austral, o vento e a neve ficaram finalmente para trás.
Afirmam os guias de viagem e convencem os postais de recordação que Valparaíso é a cidade-cultura do Chile. Valpo, carinhosamente chamada pelos habitantes, é uma cidade que sobe-e-desce, que cansa as pernas mas aquece a alma, que resvala em colinas que se elevam e morros que decaem e termina desfeita no mar. Por ruelas e empedrados, deixa-se descobrir através dos ascensores espalhados pela cidade. E independentemente do que se vende aos turistas, a verdade é que as paredes das casas gritam cores quentes e nos muros e vedações há mensagens de guerra e paz, dos tempos passados de sufoco político, de ideias, sonhos e rebeldia juvenil, de atrevimento e ousadia mas, principalmente, de amor à cidade.

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DATA: 11 AGO 2013 – 27 AGO 2013
Percurso: de Hua Hum a Santiago
Países: Chile
Total de dias em viagem: 158
Total de kms percorridos: 11532
Produção: Coletivo Indus Doc
Edição vídeo: Um Segundo Filmes
Design: MoodyStudio
Patrocinador Principal: Nomad
Patrocinador Secundário: TomTom
Media partner: Visão
Apoio em equipamento: GoPro Portugal

Um pequeno aparte sobre a Walentina

21 Março, 2014 by Dar a Volta | 3 Comments

No dia em que a Walentina passou a ser nossa, há um ano atrás, não saberíamos por quanto tempo o seria. Se iria apenas ser a nossa casa-ambulante durante esta volta pela América do Sul ou se, terminado este périplo, nos acompanharia até casa, do outro lado do oceano.

Nos últimos meses, depois de muitos emails trocados e alguns telefonemas entre cá e lá para averiguar o valor do transporte e legalização da Walentina em Portugal, uma vez que este se mostrou estar completamente fora do nosso alcance financeiro, começamos a equacionar a hipótese de a vender no país onde a comprámos: o Brasil.

Quando a ideia da Walentina ir para Portugal surgiu na nossa página do facebook, imediatamente surgiram opiniões de que deveríamos enveredar por uma campanha de crowdfunding, o que, trocado por miúdos, consiste em “pedir” a cada um que contribua com uma pequena quantia, em troca de algo a estipular por nós. Recebemos igualmente pedidos do nosso NIB e IBAN, sugestões de plataformas para desenvolver a campanha e algumas propostas de design da mesma. A todas as pessoas que perderam do seu tempo a pensar em nós e se mostraram disponíveis para se envolver connosco, o nosso mais profundo obrigado.

Em todo o caso, desde o primeiro minuto, nunca equacionamos estas hipóteses. E a razão é simples: consideramos que pedir dinheiro a quem nos segue, viajou e sonhou connosco ao longo de um ano, para que pudéssemos passear de pão-de-forma pela costa alentejana, não fazia qualquer sentido, não seria justo.

Nos últimos dias, a TomTom, que se associou ao Dar a Volta aquando da nossa travessia pelo Equador (ver aqui), aliando-se ao nosso patrocinador principal, a Nomad, apercebeu-se que a comunidade de pessoas que está à nossa volta se envolvia de uma forma tão prazerosa connosco, o que os levou a considerar que só este argumento seria suficiente para, também eles, o fazerem.

O envolvimento da TomTom consiste, explicando de uma forma simples, em financiar o transporte e posterior legalização da Walentina em Portugal, sendo que, da nossa parte, cedemos a mesma nos próximos meses para que a marca possa “oferecer a possibilidade de vivenciar uma experiência a bordo da Walentina pelo Brasil”, palavras do Júlio Quintela, com quem, desde o início, mantemos o contacto dentro da TomTom.

Por isso, também graças a todos vocês e ao vosso envolvimento connosco, conseguimos levar a Walentina para Portugal!

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Quando a linha geográfica termina…

20 Março, 2014 by Dar a Volta | 4 Comments

Ao longo da estrada que percorre a costa do nordeste brasileiro, as placas verdes indicativas da distância até ao Rio de Janeiro – a cidade maravilhosa que, nos rabiscos do sonho, estipulámos como a meta final, o cume a atingir, a fita a cortar, desta volta pelo sul do mundo – estavam a diminuir. Dia após dia.

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Dizem que o tempo passa rápido e, num abrir e fechar de olhos, a adolescência vai-se e ficam as rugas a lembrar que esse maldito não volta atrás. Há minutos que se esvaem, desaparecem sem aviso prévio, quando o sol bate quente no corpo, este mergulha na água salgada, os livros são devorados calmamente, as conversas com amigos à volta de copos não têm fim e a vida vive-se sem pressa. Depois há os dias que não correm, ficam presos nas horas a lembrar que a tristeza mora ao lado, quando a saudade bate forte no coração, aquele dia lembra alguém que partiu, que não está mais para nos receber de braços abertos e, quando cai a noite, dizemos a nós próprios que a vida continua e só nos resta levantar a cabeça e seguir caminho.

Porque o sonho, este sonho que une as pontas soltas um ano depois, não foram só dias felizes. Não foi sempre areia nos pés e música ao pôr-do-sol, montanhas nevadas entrecortadas na janela e noites à beira-mar. Foi tudo isto e muito mais. Foram meses de temperaturas negativas, noites mal dormidas em bombas de gasolina, banhos frios em banheiras para esquecer, discussões calorosas, outras de coisa nenhuma, que passar vinte e quatro horas do dia juntos não é fácil.

Começa-se a evocar quem connosco se cruzou, pisou o mesmo caminho, apenas por algumas horas ou durante dias a fio; amigos que sabemos terem sido apenas do momento, com quem se partilharam histórias e pouco mais, outros sentimos que serão para a vida. Uns não voltamos a ver mais, outros vamos fazendo com que os caminhos se cruzem uma e outra vez. São destas coisas boas que quero que regressem no bolso comigo, porque os momentos maus ou mais difíceis, com o tempo, a própria mente faz por deixá-los para trás.

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A linha geográfica chega ao fim, o Rio de Janeiro já se vê ao longe, e um misto de emoções apodera-se de nós. Queremos continuar? Voltar a casa? Apesar de tudo, isto não é o fim, é apenas o começo de outra etapa. Termina o caminho, não há mais estrada a percorrer, mas é agora, no regresso a casa, que se põem os pontos nos i’s, fazem-se listas do melhor e do pior momento, agrupam-se os países corridos, alinham-se os sentimentos e as emoções extraordinárias sentidas ao longo de muitos meses e, em alguns momentos, deseja-se que o tempo volte atrás. Para voltar a dormir naquela praia no Uruguai; ouvir a voz embargada da Silvia, enquanto com uma mão bate na porta da Walentina e na outra ostenta uma garrafa de vinho, a convidar-nos para dormir à lareira em sua casa; admirar o céu estrelado da Patagónia e sentir o vento naquelas terras sem fim; pisar a neve de Ushuaia e os desertos da Bolívia; rir compulsivamente com o Rodrigo, em torno da mesa de madeira em Mancora, até a noite obrigar a dormir, e recordar Portugal; voltar a cruzar caminho com o Eduardo, aqui, ali e onde menos se espera, para fazer jus ao ano que correu; acordar de manhã, dar um mergulho no mar e seguir caminho.

E agora? O que queremos fazer com o que levamos no bolso?

A Walentina chegou aqui com a ajuda da TomTom.

Ouro sobre azul

8 Março, 2014 by Dar a Volta | 4 Comments

Não é novidade para ninguém (que tenha acompanhado os últimos textos) que a Amazónia, para mim, não irá constar na lista dos “melhores lugares visitados” desta volta. De cada vez que digo isto, o Inácio revira os olhos. Ele não entende, ele adorou. O que lhe digo, vezes sem conta, é que tenho esse direito. Eu sei que há quem tenha o sonho de visitar o “pulmão da terra” – como ele tinha – mas essa foi uma ideia que nunca plantei na minha cabeça, nem nos meus sonhos mais exóticos e desmedidos. Sempre sonhei visitar a Patagónia. E adorei. Nunca sonhei visitar a Amazónia. E não gostei.

A relação simbiótica entre o calor e a humidade, capaz de transformar o nosso corpo em manteiga bamboleante, conduzia-me ao desalento, dia após dia. As chuvas torrenciais sem aviso prévio. Os mosquitos-assassinos que, sem dó nem piedade, ou vergonha aparente, faziam da nossa pele um campo de batalha. A água castanha – turva da terra e do céu reflectido em espelho – que alimenta e serve de estrada para quem por ali vive. Os barcos, grandes e malcheirosos, atestados de mercadorias e gentes, deitadas em redes sobrepostas pela falta de espaço. Para não falar nos dias de espera em Manaus, para lá de quinze, enquanto a Walentina estava nas mãos do mecânico, que se não fosse a família do Leo a acolher-nos, tinha-nos ido a paciência e o orçamento. Bem sei, são tudo factores triviais e fúteis. E o Inácio argumenta, claro: “Mas a Índia (ver aqui) é um país grande e malcheiroso, cheio de gente, com calor, mosquitos e humidade. E tu adoras! Qual é a diferença?”. Pois, nisso tem razão. Quem sabe, a Índia, há muito que me acertou no coração. A Amazónia não.

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Portanto, no dia em que a Walentina deixou para trás a aura tropical e pisou o solo do nordeste brasileiro, a minha predisposição para a felicidade mudou. Tão simplesmente assim. Voltamos a viver na Walentina e deixámo-nos embalar nas últimas semanas desta volta pela América do Sul, entre o rodopio dos milhares de quilómetros que unem Belém a São Paulo e a beleza surpreendente das praias e esconderijos secretos da linha geográfica que vamos percorrendo.

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Os últimos dias têm sido ouro sobre azul. É não tirar os chinelos dos pés; é acordar às sete da manhã com o calor e dar um mergulho no mar para refrescar; é não ter o mesmo poiso, dia após dia, olhar o mapa e apenas contar os quilómetros que distam uma praia à outra; é ler um livro, sofregamente, de uma ponta à outra; é tomar banho de água fria; é deixar a Walentina cheia de areia; é comer fruta em abundância; é ter como única preocupação o nível da gasolina no depósito; é receber, gratuitamente e sem esperar nada em troca, sorrisos e recomendações; é secar o corpo enrolados na toalha; é evocar os verões da adolescência e envolver os pulsos com as pulseiras coloridas do “Senhor do Bonfim da Bahia”; é querer correr na estrada para chegar num fôlego à praia seguinte; é pisar nas rochas à procura de caranguejos; é entrar na água do mar, quente e salgada, e não ter razões para querer sair; é ficar irritado porque a areia se entranhou no cabelo; é espalhar creme no corpo e sentir o sol a estalar na pele; é aproveitar ao máximo o que a vida nos dá porque, dizem por aí, que “o que é bom acaba sempre”. Permanecem as memórias que, essas, ninguém nos rouba. Nem a vida.

 

A Walentina chegou aqui com a ajuda da TomTom.

Ep#6: de Ushuaia a Hua Hum | Argentina e Chile

23 Fevereiro, 2014 by Dar a Volta | 2 Comments

Em Punta Arenas, no sul do mundo, sentámo-nos numa mesa repleta de viajantes e nativos com os quais partilhámos um prato típico da Patagónia: o cabrito assado. Com menos 5 graus, envolvemo-nos com o carnaval celebrado naquelas bandas. Sentimos o gelo estalar no glaciar argentino Perito Moreno e, com o Luís Sepúlveda nas mãos, seguimos os passos do escritor — visitámos o famoso comboio La Trochita, explorámos a cabana dos bandidos americanos, Butch Cassidy e The Sundance Kid, e demos um salto ao cemitério de El Maitén, local onde se encontra sepultado o célebre pistoleiro Sheffield que, reza a lenda, foi pago para capturar os anteriores criminosos, acabando por juntar-se a eles. Antes de seguirmos rumo à capital chilena, pernoitámos num dos locais mais incríveis de toda esta volta: no areal do rio Hua-Hum.

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DATA: 11 JUL 2013 – 10 AGO 2013
Percurso: de Ushuaia a Hua Hum
Países: Argentina e Chile
Total de dias em viagem: 142
Total de kms percorridos: 10613
Produção: Coletivo Indus Doc
Edição vídeo: Um Segundo Filmes
Design: MoodyStudio
Patrocinador Principal: Nomad
Patrocinador Secundário: TomTom
Media partner: Visão
Apoio em equipamento: GoPro Portugal

Inspiração precisa-se!

11 Fevereiro, 2014 by Dar a Volta | 3 Comments

Não sei se do calor que roça o insuportável, se do misto desse calor com a humidade tão típica da Amazónia, se do nada-para-fazer-desde-que-a-Walentina-está-no-mecânico-há-mais-de-uma-semana, se do pequeno vazio que os amigos que foram – o Tiago e o António – deixaram por aqui, se das saudades de casa ou se simplesmente do ar que se respira mas, aqui por estes lados, precisa-se de inspiração.

Quando se está, durante uma longa viagem, com outros amigos portugueses, é inevitável não se recordar o país, as histórias daquelas noitadas tardias, retomar as asneiras na língua, deixar de lado a crise e querer pisar a calçada da rua de novo. Mas depois eles vão embora. Regressam a casa, ao caldo verde, à comida da mãe e aos abraços dos amigos, matam saudades de tudo o que recordámos em conjunto e aqui, do outro lado do oceano, fica um vazio ainda maior por preencher.

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Há mais de dois dias que escrevo e apago, volto a escrever, irrito-me e retorno a apagar. Dizem os cientistas que a criatividade está nos momentos em que pouco se exercita o cérebro, que o insight emerge durante as actividades em que não se puxa demasiado por ele; sendo assim, já peguei numa folha em branco e fiz desenhos, já peguei em canetas de diferentes cores, ouvi música e cantei desalmadamente, lavei roupa e juntei ingredientes na panela, e criatividade, nem vê-la.

Desde que o “Dois Irmãos” atracou em Manaus e fomos, mais uma vez, recebidos de braços abertos pela família do Leo, a Walentina tem estado no mecânico. Antes de deixar a cidade, há um mês e meio atrás, estávamos cientes de um barulho estranho e o mecânico disse ser necessário trocar apenas uma peça, “quando voltarem tratamos disso”. Voltamos e a pequena peça passou a ser o motor e o que seria apenas um dia transformou-se em mais de uma semana. Desconheço se os mecânicos são iguais em todas as oficinas do mundo mas, por aqui (leia-se América do Sul), é preciso estar em cima deles, insistir para que peguem no carro naquele momento e não três horas depois e é preciso pôr as mãos na massa para que o tempo e o orçamento diminuam. E depois há os momentos menos bons, quando eles decidem não ir trabalhar num dia de semana porque se magoaram no pé, ficam a dormir porque a bebedeira do dia anterior a outra actividade não permite, ou não estão na oficina e o telemóvel fica desligado o dia todo. Os dias atropelam-se uns aos outros, termina uma semana e começa outra e a paciência, essa fonte santa de estabilidade, desmorona-se aos poucos.

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No fundo, sei o que se passa. Precisamos de voltar à estrada, de rolar quilómetros sem pressa, de tomar o pequeno-almoço numa bomba de gasolina e cozinhar o jantar ao ar livre, de fazer amigos imprevistos mas que persistem na memória, outros que sabemos não ver mais, precisamos de dormir à beira-mar, ver o pôr-do-sol através de uma janela e acordar quando o corpo pede, precisamos de regressar às paisagens inesquecíveis que a câmara eterniza e a memória não deixa esquecer; preciso de voltar a ler em andamento, de procurar sentidos e orientações em mapas, preciso de me irritar com a condução alheia e acenar quando nos sorriem do outro lado, preciso de contar carros e nuvens para ajudar o tempo a passar, preciso de dormir no colchão macio da Walentina e fechar as cortinas antes dos olhos cerrarem, preciso de me levantar a meio da noite, procurar uma árvore escondida e deixar a porta aberta porque o sono esquece a segurança, preciso é que a Walentina volte à vida.

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A Walentina chegou aqui com a ajuda da TomTom.