Apple Store
Google Play Store
Facebook
Instagram
Vimeo
Podcast
RSS

Sobre | Viver

8 Outubro, 2014 by Dar a Volta | 1 Comment

Tanta vida aconteceu neste tempo intermédio. Ainda em Portugal, uns meses antes de partirmos para a América do Sul, o Inácio falou-me de uma conversa que tinha tido com o Tiago Costa (co-fundador da Nomad), algo sobre percorrer um rio inóspito na amazónia boliviana. Disse que sim, tudo bem, ainda faltava tanto tempo que não valia a pena preocupar-me já com isso. Havia uma brecha de tempo, nos treze meses de duração da nossa volta, em que poderíamos “encaixar” aquele projecto. O objectivo era o Tiago encontrar-se connosco em La Paz. Para adicionar à equação, juntar-se-ia a nós o António Luís Campos, também ele Líder Nomad, que já se encontrava connosco naquela altura. Seríamos quatro a descer o rio Beni.

Os meses foram passando, a viagem pela América do Sul na Walentina foi-se desenrolando e, chegado o momento de partir para a amazónia, surpreendeu-me um teste de gravidez positivo. Os médicos consultados em La Paz desaconselhavam. A médica em Portugal idem aspas. Era demasiado arriscado. De quatro, passaram a ser três a percorrer o rio Beni. Nesse mesmo dia, encontrou-se connosco num bar da cidade o Eduardo, o viajante-surfista (ou princesa do mar, como gosto de o chamar) que conhecêramos há uns meses em Chicama, no norte do Peru, e com quem fomos mantendo o contacto. Fizeram-lhe uma proposta. E voltaram a ser quatro para percorrer o rio Beni. Quanto a mim, voei – num decrépito avião de dezoito lugares onde vi a minha vida a andar para trás – para Riberalta, a cidade-destino de todo aquele périplo, limitando-me a (des)esperar por eles.

Tiago Costa, Leninha, Inácio e António Luís Campos - Manaus

Tiago Costa, Leninha, Inácio e António Luís Campos – Manaus

Em Outubro de 2012, com um mapa da América do Sul alfinetado, riscado e sarrabiscado, descobri um espaço temporal livre. Entre viagens Nomad e uma volta à América do Sul numa pão-de-forma, abria-se uma janela de tempo para descobrir o rio Beni. Sentado em frente ao computador com o Tiago Costa, começamos a perceber que entre Rurrenabaque e Riberalta, na amazónia boliviana, havia um rio que serpenteava a floresta e, por muito que ampliássemos o mapa, não conseguíamos discernir se alguém vivia ali. Pesquisámos e não encontramos grande informação. Movidos pela lógica de que todos os lugares do mundo têm sempre alguma coisa para contar, fomos descobrir a história daqueles 1000 quilómetros. Em Janeiro de 2014, estávamos reunidos em La Paz, na Bolívia. Tínhamos definida a equipa e estávamos prontos para partir para Rurrenabaque, local onde tudo começaria. A nós os dois juntou-se o António Luís Campos para fazer o registo fotográfico e a Leninha, a minha companheira do Dar a Volta que faria o registo escrito.

Mas é sempre nestas alturas que as voltas dão a volta numa reviravolta. Perante um teste de gravidez positivo num momento muito prematuro, embarcar num barco (quase piroga) rio abaixo, durante uma semana, talvez não fosse a opção mais sensata. Sabíamos que este inacreditável feliz facto não iria hipotecar a realização de qualquer um dos nossos sonhos. Em todo o caso, perante alguma loucura é sempre útil ter alguma sensatez.

Num bar em La Paz, com duas cervejas na mesa (o António só bebe chás e a Leninha já não poderia beber dada a sua mais recente condição) brindámos a esta nova viagem e sentimos que o apoio dos amigos é mais importante do que a realização de qualquer sonho. Naquele momento, o projeto de descobrir a história dos 1000 quilómetros do Rio Beni poderia ser adiada.

Ora, é exatamente neste momento que a história toma um novo rumo. Nesta mesma mesa, desse mesmo café, junta-se a este grupo um novo amigo viajante que, numa viagem de dez meses pela América do Sul, se cruzou no nosso caminho num dado momento. O Eduardo Madeira é jornalista, embora esse não seja o único requisito para o termos desafiado a embarcar em tamanha expedição. O Eduardo é um viajante completo, tolerante, tranquilo e organizado o suficiente para ser um grande parceiro nesta viagem de exploração. Mais do que os atributos académicos – que os tem – o importante era perceber se durante uma semana conseguíamos conviver com o Eduardo numa embarcação frágil, partilhando os humores e o receios. Afinal, tal como tínhamos visto no Google Earth, estávamos a caminho do desconhecido.

Com a Leninha numa nova super-condição de fragilidade, depois de três voos adiados para Rurrenabaque e três consultas nos melhores médicos de La Paz, demos o primeiro passo para esta viagem. Em Rurrenabaque, eu e a Leninha juntámo-nos ao Tiago Costa, ao António Luís Campos e ao Eduardo Madeira. Já havia barco e barqueiro. Marcámos um voo para a Leninha chegar a Riberalta (povoação no final dos 1000 quilómetros) e entrámos no barco.

Foto: António Luís Campos

Tiago Costa, Eduardo Madeira e Inácio | Foto: António Luís Campos

Naquele momento, no dia 17 de Janeiro de 2014, coloquei os dois pés dentro do barco, disse adeus à mãe da minha filha (que entretanto nasceu e se chama Alice) e parti. Ainda hoje não sei se foi a decisão certa!

(a visão do Inácio foi retirada da Magazine Nomad)

Porquê escrever agora sobre tudo isto? Por uma simples razão. Muitos meses volvidos, muitas horas gastas a rever e editar fotografias, vídeos e textos de todos aqueles dias passados a explorar o rio Beni, desaguam agora numa exposição e palestra.

10636243_351463138364594_6629448316203788583_n

Assim, em jeito de convite, apareçam no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (Lisboa), no próximo sábado, dia 11 de Outubto, às 15h. Saibam mais sobre o evento aqui!

E “depois do adeus”…?

7 Setembro, 2014 by Dar a Volta | 1 Comment

Para trás ficou, há muitos meses, a rotina de acordar diariamente na Walentina – com o frio ou calor extremo que o efeito da chapa providenciava no interior –, onde invariavelmente aprendemos a conferir um valor diferente ao tempo de estrada porque a viagem é isso mesmo, é feita na estrada, de quilómetro em quilómetro e de cidade em cidade.

1069918_547277805308263_140959967_n

Para trás ficou, há muitos meses, o dia em que entregámos a Walentina, em São Paulo, treze meses depois de partirmos daquela mesma cidade, nas mãos do Júlio Quintela e do Felippe Paiva, que personificavam a TomTom. Para relembrar o elo, acordo, parceria ou a sorte – é como lhe quiserem chamar – que aconteceu entre o Dar a Volta e a TomTom podem fazê-lo aqui.

Uma parte de nós, dias antes de regressarmos a Portugal, também ficou por ali, não se tivesse a Walentina, com o tempo, transformado em muito mais do que uma casa sobre rodas. Foi tecto de emoções e vivências fortes, boleia de amigos para a vida, janela de lugares incríveis e solitários, palco de avarias e tempo perdido em mecânicos, foi casa com vida.

Em Agosto, a Walentina fez a sua última viagem em solo sul-americano. Nas mãos do Fábio Lima, mentor do projecto InTrip, juntamente com o Eriberto Almeida, percorreram durante vinte e cinco dias o sul do país. Nada como ler, nas palavras do Fábio, a aventura a que se propuseram.

Três amigos se reúnem para uma última viagem no Brasil, antes da mudança de um deles para fora do país. Ok, até aí nada de diferente, uma roadtrip entre amigos parece ser uma opção bacana, mas comum, certo? Seria, se um desses amigos não fosse o próprio carro que vai fazer essa viagem! É isso mesmo, a Kombi apelidada de “Walentina” é a “amiga” que se mudará e por isso se tornou a personagem principal de uma viagem que nós do InTrip faremos para produzir uma websérie fantástica sobre como é possível visitar lugares menos tradicionais para o turismo e mesmo assim conhecer pessoas e atividades locais que fazem da viagem uma experiência única!

O resto do texto poderão lê-lo aqui.

10687016_778369518897235_2966687118807357019_n

Fotografia captada por Eriberto Almeida e cedida por Fábio Lima, mentor do projecto InTrip.

10570288_774960739238113_4980224527001110878_n

Fotografia captada por Eriberto Almeida e cedida por Fábio Lima, mentor do projecto InTrip.

E depois de um adeus, ocorrido há muitos meses atrás, a Walentina regressa novamente às nossas mãos. Nos próximos dias, vai embarcar num cruzeiro sem retorno rumo ao porto de Leixões. No próximo mês, vai estar nas nossas mãos. Nos próximos anos, vai percorrer a costa alentejana; vai calcorrear trás-os-montes e pedalar pelas aldeias de xisto; vai atravessar a fronteira, quem sabe até França ou Itália; vai estacionar na Serra da Arrábida ou no Gerês; vai continuar a ser nossa e vamos vivê-la ao máximo. Há tanto por querer, demasiados planos, sonhos e horizontes, e “o tempo não pára, o tempo é coisa rara e a gente só repara quando ele já passou”.

Ep#8: de Santiago ao acidente | Chile e Bolívia

10 Julho, 2014 by Dar a Volta | 0 comments

Em Santiago, a capital chilena cercada pelos imensos montes nevados, não poderíamos evitar a tradicional volta pela cidade, passando pelo mercado municipal, as ruas movimentadas do centro, a catedral e até a famosa La Piojera, um reconhecido e antigo bar frequentado não só por jovens e turistas, mas principalmente pelos chilenos que, depois de um dia de trabalho, fazem uma paragem antes de regressarem a casa. Quanto a nós, ficámos-nos pelo Terremoto, o cocktail mais famoso do país e inventado neste mesmo bar, composto por vinho e uma bola de gelado. Antes de deixar Santiago, estivemos sentados à conversa em casa de Fernando Milagros, um músico célebre pela pertença à área musical independente de Santiago e que disse uma das frases que mais nos marcaram ao longo de 13 meses de viagem: “a América do Sul é o futuro”. Atravessámos posteriormente o imenso, belo e inóspito Salar de Uyuni, o maior deserto de sal do mundo situado na Bolívia, na companhia de um grupo de viajantes da Nomad. A caminho de Potosí, a Walentina sofreu o seu único acidente…

Perdeu algum episódio? Clique aqui e reveja tudo!

Data: 20 AGO 2013 – 23 Ago 2013
Percurso: de Santiago ao acidente
Países: Chile e Bolívia
Total de dias em viagem: 153
Total de kms percorridos: 13898
Produção: Coletivo Indus Doc
Edição vídeo: Um Segundo Filmes
Design: MoodyStudio
Patrocinador Principal: Nomad
Patrocinador Secundário: TomTom
Media partner: Visão
Apoio em equipamento: GoPro Portugal

O sonho que se apoderou das nossas vidas. Para o resto da vida.

17 Abril, 2014 by Dar a Volta | 0 comments

Depois de treze meses em viagem, 35.000 quilómetros de estradas sul-americanas e dez países (re)volvidos, repletos de momentos e dias que a memória quer conservar na linha do tempo, e de pessoas para embalsamar no bolso da alma, regressamos a casa e ao velho quotidiano a que a vida nos acostumara. No entanto, apesar de sermos os mesmos, sabemo-nos diferentes. Quanto mais não seja porque, mais uma vez, partimos com o intuito de dar a volta às nossas vidas. Desenhámos um sonho no mapa e desejámos o que, na hora da partida, sabe sempre a inalcançável.

É previsível o conhecimento de que algo vai mudar nas nossas vidas perante uma grande viagem; o próprio acto de viajar a isso impele. Sair da zona de conforto e pisar fora da caixa; beber de diferentes culturas; aprender outro idioma, sem o recurso a regras ou dicionários, apenas porque o contacto humano a isso exige; cruzar linhas imaginárias que, desde o sul do mundo a um dos países mais perigosos dos dias de hoje, nos oferecem paisagens dignas de nos quedarmos sem fôlego; mas, muito mais do que tudo isso, as pessoas. Sempre as pessoas. Que nos abrem as portas de sua casa, entregam a chave sem receios e mudam o dia para que esse seja passado unicamente na nossa companhia. Mais do que os lugares, são as pessoas que fazem as viagens. Incitam-nos, sem o saberem, a (re)descobrir e a pôr em causa todas as convicções e preconceitos que partiram connosco no momento que saímos de casa. Mas quando se despacha as malas para o porão e se acena a quem mais falta nos irá fazer, não temos noção sequer do impacto que os meses vindouros trarão. Imagina-se apenas. Mas não se sabe.

Leninha_facebook-2

Fotografia por www.m-ania.com

Durante treze meses, o sonho tomou conta das nossas vidas e, no final, a vida é que tomou conta de nós. Partimos dois e regressamos três. Ainda em La Paz, de partida para a Amazónia, descobrimos que estava grávida. Já lá vão quatro meses de uma pequena vida.

A minha barriga começa a dar sinais de si e, bem no meu interior, cresce um sonho que nasceu de outro. Estamos a meses de ser pais e essa viagem, essa lição maior que o sonho que outrora projectámos, começamos a estudá-la agora. Por tudo isto, somos os mesmos, mas sabemo-nos diferentes.

Leninha_facebook-1

Fotografia por www.m-ania.com

Arrumar a vida

14 Abril, 2014 by Dar a Volta | 0 comments

Escrevo este texto no silêncio que me é tão familiar de uma biblioteca, entre o virar incessante de folhas, o clarear de gargantas alheias e canetas em absoluto frenesim. Para trás, ficaram os lugares improváveis para conciliar palavras: as mesas desordenadas em bombas de gasolina; a Walentina em andamento com o ruído do motor como pano de fundo; cafés de esquina, sempre com o idioma espanhol como companhia distante; bancos de rua que servem de poiso nas horas de espera pelos arranjos mecânicos. Para trás, ficaram também os melhores lugares para escrever: com os pés na areia de uma qualquer praia quase deserta; à beira-rio, porque o barco não esperou e a estrada de regresso dista horas da povoação mais próxima; salas acolhedoras de quem, sem esperar nada em troca, nos abriu a porta de casa; à lareira de um hostel no sul do mundo, enquanto o gelo se acumula no parapeito das janelas e o frio impede uma estadia demorada a bordo da Walentina.

2013-08-02 11.47.42

Nos dias que antecederam a travessia do oceano para regressar a casa, comecei a escrever uma lista do que queria fazer nas primeiras semanas, como quem enumera as resoluções de ano novo. Sem prioridades ou ordem de importância, e sem mencionar a família ou amigos, que esses não precisam de evocações escritas, alistei tudo aquilo de que sentia falta. Chamei-lhe a Lista das Saudades. E apercebi-me de que sentia falta de coisas que, grande parte das vezes, não dava assim tanta importância. Tomar um café expresso no aeroporto quando aterrássemos. Atravessar a Ponte D. Luís a pé. Comer húngaros no café da Ribeira. Perder-me numa livraria. Ler o jornal numa esplanada na praia ao domingo. Voltar à natação. Andar de metro. Comer sopa todos os dias. Escolher um livro da prateleira para ler. Pintar as unhas. Meter-me no comboio para Lisboa. Visitar as feirinhas de sábado à tarde na Baixa. Comprar um caderno novo.

image

Quando andamos na estrada, conhecem-se outros que estão a viajar por um longo período de tempo para fugir de alguma coisa ou simplesmente para esquecer o que ficou para trás. Nesses casos, dizem-nos que não sentem falta de quase nada e que a saudade é rematada com novas amizades, passageiras e circunstanciais, com quem também anda de comboio em comboio, de aeroporto em aeroporto, quase sem se demorar em estações. Não critico esta forma de estar, simplesmente não me identifico com ela. Sou demasiado apegada à família e amigos para não desejar a sua presença constante. Sou apaixonada pela minha cidade e gosto dos pequenos detalhes do dia-a-dia. Se gosto da rotina? De não sair de casa a não ser para ir trabalhar ou jantar fora? Não, não gosto. E por isso não vou mentir, dei por mim, na tarde de domingo, a pesquisar voos para a Índia e a ver os preços dos bilhetes de comboio pelo sul da Europa. Não quer dizer que vá a lado algum, simplesmente quis viajar daqui naquele momento e faço-o assim.

O avião aterrou, finalmente, ao final da tarde de sábado e disseram-nos os abraços familiares, a chuva miudinha, o frio que já devia ser sol de primavera, o telemóvel a tocar e o sorriso aberto de quem não nos vê há largos meses, que chegamos ao aconchego da nossa casa. Diz-nos o olhar surpreso dos nossos pais e o abraço apertado da minha melhor amiga – que não esperavam ver-nos antes de quarta-feira, data em que anunciamos a chegada – como é maravilhoso ter-nos de volta. Olho para trás, para o dia em que despachámos as mochilas para o porão há um ano atrás, e sinto que a incerteza da partida, da vida desconhecida que sentia que nos esperava, “não era nada em comparação com a alegria do reencontro”.

10152591_652328458136530_1844839360_n

É tempo de repor as saudades. E arrumar a vida de novo, que ainda agora cheguei e não consigo deixar de me sentir uma estrangeira no meu próprio país. As ruas em que o sentido se alterou ou passaram a ser pedestres, os horários dos autocarros que mudaram, o café que encerra mais cedo e a loja que já fechou.

Ep#7: de Hua Hum a Santiago | Chile

24 Março, 2014 by Dar a Volta | 0 comments

Após entrarmos no Chile, país esguio rente ao mar, ao atravessar o famoso rio Hua-Hum, onde Che Guevara o fez há muitos anos atrás na sua jornada de mota pela América do Sul, o frio austral, o vento e a neve ficaram finalmente para trás.
Afirmam os guias de viagem e convencem os postais de recordação que Valparaíso é a cidade-cultura do Chile. Valpo, carinhosamente chamada pelos habitantes, é uma cidade que sobe-e-desce, que cansa as pernas mas aquece a alma, que resvala em colinas que se elevam e morros que decaem e termina desfeita no mar. Por ruelas e empedrados, deixa-se descobrir através dos ascensores espalhados pela cidade. E independentemente do que se vende aos turistas, a verdade é que as paredes das casas gritam cores quentes e nos muros e vedações há mensagens de guerra e paz, dos tempos passados de sufoco político, de ideias, sonhos e rebeldia juvenil, de atrevimento e ousadia mas, principalmente, de amor à cidade.

Perdeu algum episódio? Clique aqui e reveja tudo!

DATA: 11 AGO 2013 – 27 AGO 2013
Percurso: de Hua Hum a Santiago
Países: Chile
Total de dias em viagem: 158
Total de kms percorridos: 11532
Produção: Coletivo Indus Doc
Edição vídeo: Um Segundo Filmes
Design: MoodyStudio
Patrocinador Principal: Nomad
Patrocinador Secundário: TomTom
Media partner: Visão
Apoio em equipamento: GoPro Portugal

Um pequeno aparte sobre a Walentina

21 Março, 2014 by Dar a Volta | 3 Comments

No dia em que a Walentina passou a ser nossa, há um ano atrás, não saberíamos por quanto tempo o seria. Se iria apenas ser a nossa casa-ambulante durante esta volta pela América do Sul ou se, terminado este périplo, nos acompanharia até casa, do outro lado do oceano.

Nos últimos meses, depois de muitos emails trocados e alguns telefonemas entre cá e lá para averiguar o valor do transporte e legalização da Walentina em Portugal, uma vez que este se mostrou estar completamente fora do nosso alcance financeiro, começamos a equacionar a hipótese de a vender no país onde a comprámos: o Brasil.

Quando a ideia da Walentina ir para Portugal surgiu na nossa página do facebook, imediatamente surgiram opiniões de que deveríamos enveredar por uma campanha de crowdfunding, o que, trocado por miúdos, consiste em “pedir” a cada um que contribua com uma pequena quantia, em troca de algo a estipular por nós. Recebemos igualmente pedidos do nosso NIB e IBAN, sugestões de plataformas para desenvolver a campanha e algumas propostas de design da mesma. A todas as pessoas que perderam do seu tempo a pensar em nós e se mostraram disponíveis para se envolver connosco, o nosso mais profundo obrigado.

Em todo o caso, desde o primeiro minuto, nunca equacionamos estas hipóteses. E a razão é simples: consideramos que pedir dinheiro a quem nos segue, viajou e sonhou connosco ao longo de um ano, para que pudéssemos passear de pão-de-forma pela costa alentejana, não fazia qualquer sentido, não seria justo.

Nos últimos dias, a TomTom, que se associou ao Dar a Volta aquando da nossa travessia pelo Equador (ver aqui), aliando-se ao nosso patrocinador principal, a Nomad, apercebeu-se que a comunidade de pessoas que está à nossa volta se envolvia de uma forma tão prazerosa connosco, o que os levou a considerar que só este argumento seria suficiente para, também eles, o fazerem.

O envolvimento da TomTom consiste, explicando de uma forma simples, em financiar o transporte e posterior legalização da Walentina em Portugal, sendo que, da nossa parte, cedemos a mesma nos próximos meses para que a marca possa “oferecer a possibilidade de vivenciar uma experiência a bordo da Walentina pelo Brasil”, palavras do Júlio Quintela, com quem, desde o início, mantemos o contacto dentro da TomTom.

Por isso, também graças a todos vocês e ao vosso envolvimento connosco, conseguimos levar a Walentina para Portugal!

banner_tomtom

Quando a linha geográfica termina…

20 Março, 2014 by Dar a Volta | 4 Comments

Ao longo da estrada que percorre a costa do nordeste brasileiro, as placas verdes indicativas da distância até ao Rio de Janeiro – a cidade maravilhosa que, nos rabiscos do sonho, estipulámos como a meta final, o cume a atingir, a fita a cortar, desta volta pelo sul do mundo – estavam a diminuir. Dia após dia.

2014-03-20 14.03.44

Dizem que o tempo passa rápido e, num abrir e fechar de olhos, a adolescência vai-se e ficam as rugas a lembrar que esse maldito não volta atrás. Há minutos que se esvaem, desaparecem sem aviso prévio, quando o sol bate quente no corpo, este mergulha na água salgada, os livros são devorados calmamente, as conversas com amigos à volta de copos não têm fim e a vida vive-se sem pressa. Depois há os dias que não correm, ficam presos nas horas a lembrar que a tristeza mora ao lado, quando a saudade bate forte no coração, aquele dia lembra alguém que partiu, que não está mais para nos receber de braços abertos e, quando cai a noite, dizemos a nós próprios que a vida continua e só nos resta levantar a cabeça e seguir caminho.

Porque o sonho, este sonho que une as pontas soltas um ano depois, não foram só dias felizes. Não foi sempre areia nos pés e música ao pôr-do-sol, montanhas nevadas entrecortadas na janela e noites à beira-mar. Foi tudo isto e muito mais. Foram meses de temperaturas negativas, noites mal dormidas em bombas de gasolina, banhos frios em banheiras para esquecer, discussões calorosas, outras de coisa nenhuma, que passar vinte e quatro horas do dia juntos não é fácil.

Começa-se a evocar quem connosco se cruzou, pisou o mesmo caminho, apenas por algumas horas ou durante dias a fio; amigos que sabemos terem sido apenas do momento, com quem se partilharam histórias e pouco mais, outros sentimos que serão para a vida. Uns não voltamos a ver mais, outros vamos fazendo com que os caminhos se cruzem uma e outra vez. São destas coisas boas que quero que regressem no bolso comigo, porque os momentos maus ou mais difíceis, com o tempo, a própria mente faz por deixá-los para trás.

2014-03-20 14.12.41

A linha geográfica chega ao fim, o Rio de Janeiro já se vê ao longe, e um misto de emoções apodera-se de nós. Queremos continuar? Voltar a casa? Apesar de tudo, isto não é o fim, é apenas o começo de outra etapa. Termina o caminho, não há mais estrada a percorrer, mas é agora, no regresso a casa, que se põem os pontos nos i’s, fazem-se listas do melhor e do pior momento, agrupam-se os países corridos, alinham-se os sentimentos e as emoções extraordinárias sentidas ao longo de muitos meses e, em alguns momentos, deseja-se que o tempo volte atrás. Para voltar a dormir naquela praia no Uruguai; ouvir a voz embargada da Silvia, enquanto com uma mão bate na porta da Walentina e na outra ostenta uma garrafa de vinho, a convidar-nos para dormir à lareira em sua casa; admirar o céu estrelado da Patagónia e sentir o vento naquelas terras sem fim; pisar a neve de Ushuaia e os desertos da Bolívia; rir compulsivamente com o Rodrigo, em torno da mesa de madeira em Mancora, até a noite obrigar a dormir, e recordar Portugal; voltar a cruzar caminho com o Eduardo, aqui, ali e onde menos se espera, para fazer jus ao ano que correu; acordar de manhã, dar um mergulho no mar e seguir caminho.

E agora? O que queremos fazer com o que levamos no bolso?

A Walentina chegou aqui com a ajuda da TomTom.

Ouro sobre azul

8 Março, 2014 by Dar a Volta | 4 Comments

Não é novidade para ninguém (que tenha acompanhado os últimos textos) que a Amazónia, para mim, não irá constar na lista dos “melhores lugares visitados” desta volta. De cada vez que digo isto, o Inácio revira os olhos. Ele não entende, ele adorou. O que lhe digo, vezes sem conta, é que tenho esse direito. Eu sei que há quem tenha o sonho de visitar o “pulmão da terra” – como ele tinha – mas essa foi uma ideia que nunca plantei na minha cabeça, nem nos meus sonhos mais exóticos e desmedidos. Sempre sonhei visitar a Patagónia. E adorei. Nunca sonhei visitar a Amazónia. E não gostei.

A relação simbiótica entre o calor e a humidade, capaz de transformar o nosso corpo em manteiga bamboleante, conduzia-me ao desalento, dia após dia. As chuvas torrenciais sem aviso prévio. Os mosquitos-assassinos que, sem dó nem piedade, ou vergonha aparente, faziam da nossa pele um campo de batalha. A água castanha – turva da terra e do céu reflectido em espelho – que alimenta e serve de estrada para quem por ali vive. Os barcos, grandes e malcheirosos, atestados de mercadorias e gentes, deitadas em redes sobrepostas pela falta de espaço. Para não falar nos dias de espera em Manaus, para lá de quinze, enquanto a Walentina estava nas mãos do mecânico, que se não fosse a família do Leo a acolher-nos, tinha-nos ido a paciência e o orçamento. Bem sei, são tudo factores triviais e fúteis. E o Inácio argumenta, claro: “Mas a Índia (ver aqui) é um país grande e malcheiroso, cheio de gente, com calor, mosquitos e humidade. E tu adoras! Qual é a diferença?”. Pois, nisso tem razão. Quem sabe, a Índia, há muito que me acertou no coração. A Amazónia não.

f2

Portanto, no dia em que a Walentina deixou para trás a aura tropical e pisou o solo do nordeste brasileiro, a minha predisposição para a felicidade mudou. Tão simplesmente assim. Voltamos a viver na Walentina e deixámo-nos embalar nas últimas semanas desta volta pela América do Sul, entre o rodopio dos milhares de quilómetros que unem Belém a São Paulo e a beleza surpreendente das praias e esconderijos secretos da linha geográfica que vamos percorrendo.

f1

Os últimos dias têm sido ouro sobre azul. É não tirar os chinelos dos pés; é acordar às sete da manhã com o calor e dar um mergulho no mar para refrescar; é não ter o mesmo poiso, dia após dia, olhar o mapa e apenas contar os quilómetros que distam uma praia à outra; é ler um livro, sofregamente, de uma ponta à outra; é tomar banho de água fria; é deixar a Walentina cheia de areia; é comer fruta em abundância; é ter como única preocupação o nível da gasolina no depósito; é receber, gratuitamente e sem esperar nada em troca, sorrisos e recomendações; é secar o corpo enrolados na toalha; é evocar os verões da adolescência e envolver os pulsos com as pulseiras coloridas do “Senhor do Bonfim da Bahia”; é querer correr na estrada para chegar num fôlego à praia seguinte; é pisar nas rochas à procura de caranguejos; é entrar na água do mar, quente e salgada, e não ter razões para querer sair; é ficar irritado porque a areia se entranhou no cabelo; é espalhar creme no corpo e sentir o sol a estalar na pele; é aproveitar ao máximo o que a vida nos dá porque, dizem por aí, que “o que é bom acaba sempre”. Permanecem as memórias que, essas, ninguém nos rouba. Nem a vida.

 

A Walentina chegou aqui com a ajuda da TomTom.